segunda-feira, 8 de junho de 2009

Rita.

Passei a infância toda dividindo o quarto com a minha irmã. O que criou zilhões de lembranças que, de tempo em tempo, se pirulitam na minha memória. E uma delas é a Rita.
Rita era uma pomba que aparecia todos os dias no parapeito da nossa janela. O que para qualquer um seria uma mera pomba pousando por perto, para a gente era a visita diária da Rita.
Mas nem todo mundo em casa tinha pela Rita a mesma afeição que a gente tinha. Cada vez que ela aparecia na janela, o cachorro latia estridente e os papagaios gritavam todos os palavrões que conheciam. O que fazia minha mãe aparecer na cozinha e espantar a injustiçada Rita com a vassoura: “Ssshhhhhh! Shhhh! Passa!”. Todo santo dia.
Desde aquela época, Rita virou sinônimo de categoria para mim e para minha irmã. Qualquer pomba passou a se chamar Rita. Tinha uma Rita no meio da praça. Uma Rita deu um rasante na minha cabeça. As Ritas premiaram o carro que eu acabei de lavar e por aí vai.
Agorinha, por exemplo, uma Rita cruza o salão de espera na rodoviária. Ousada até. Vai passeando entre as pernas e maletas do povo sentado, pegando uma migalha aqui e outra lá, no máximo dando uma corridinha quando um pé chega mais perto do que o esperado.
O mais esquisito não é a desenvoltura da Rita, mas o fato de as pessoas nem darem bola pra ela. Nem um “Xô”. Nem um olhar enojadinho. Agora que a Rita resolveu voar, foi só porque não tinha mais o que comer aqui embaixo. Ou para encontrar a outra Rita no telhado e ficar lá de cima confabulando um ataque cirúrgico às nossas cabeças.
Se eu fosse um pouco menos maluca, a essa altura não estaria quase acreditando que aquela Rita era a nossa Rita.

Um comentário:

Karla Lemes disse...

valeu o dia ler esse post hoje! Tava precisando irmã..te amo! Bjo