sexta-feira, 19 de junho de 2009

2 minutos e 1 fora

Não lembro quantos anos eu tinha, era moleca. Andava de bicicleta na rua e ia parando para conversar com alguém aqui, alguém lá. Sentava na calçada e passava o dia todo batendo papo, dando risada, sujando a roupa. Era época de trocar prioridades: ser a cestinha do time de basquete ou deixar a unha crescer? Demorei pra largar o visual camiseta e bermuda de cotton, mas já tinha jogado a franja para o lado. E já olhava no espelho mais do que 2 vezes por dia.

E justo naquele, deveriam ter sido umas 4. Saí com a bicicleta e a franja para o lado que nunca parava por causa do vento. No começo da rua tinha a Dani e, no final, o tal Alê. Cara de irmão mais velho. Metidinho, achei que me olhava demais. Que olhasse, eu não queria nada. Sentei na metadinha do banco, apoiei os braços no guidão e devolvi a encarada. Só por devolver. Só para abusar. Cerrei os olhos e segurei o ar irresistível de capa de revista. Levou uns 2 minutos até que ele parasse a conversa com a Dani e falasse comigo: “Por que você fica assim, quase fechando o olho e franzindo a testa? Fica tão feinha."

Crescer é cruelmente engraçado.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Rita.

Passei a infância toda dividindo o quarto com a minha irmã. O que criou zilhões de lembranças que, de tempo em tempo, se pirulitam na minha memória. E uma delas é a Rita.
Rita era uma pomba que aparecia todos os dias no parapeito da nossa janela. O que para qualquer um seria uma mera pomba pousando por perto, para a gente era a visita diária da Rita.
Mas nem todo mundo em casa tinha pela Rita a mesma afeição que a gente tinha. Cada vez que ela aparecia na janela, o cachorro latia estridente e os papagaios gritavam todos os palavrões que conheciam. O que fazia minha mãe aparecer na cozinha e espantar a injustiçada Rita com a vassoura: “Ssshhhhhh! Shhhh! Passa!”. Todo santo dia.
Desde aquela época, Rita virou sinônimo de categoria para mim e para minha irmã. Qualquer pomba passou a se chamar Rita. Tinha uma Rita no meio da praça. Uma Rita deu um rasante na minha cabeça. As Ritas premiaram o carro que eu acabei de lavar e por aí vai.
Agorinha, por exemplo, uma Rita cruza o salão de espera na rodoviária. Ousada até. Vai passeando entre as pernas e maletas do povo sentado, pegando uma migalha aqui e outra lá, no máximo dando uma corridinha quando um pé chega mais perto do que o esperado.
O mais esquisito não é a desenvoltura da Rita, mas o fato de as pessoas nem darem bola pra ela. Nem um “Xô”. Nem um olhar enojadinho. Agora que a Rita resolveu voar, foi só porque não tinha mais o que comer aqui embaixo. Ou para encontrar a outra Rita no telhado e ficar lá de cima confabulando um ataque cirúrgico às nossas cabeças.
Se eu fosse um pouco menos maluca, a essa altura não estaria quase acreditando que aquela Rita era a nossa Rita.