terça-feira, 16 de março de 2010

Um dia (para a Tati)

Um dia passa, vira história, vira risada na mesa do bar

Um dia a gente entende ou não mais sente ou pelo menos fala sem chorar

Um dia a gente levanta e vê que o chão continua lá

Um dia a gente acorda e decide voltar a sonhar

Um dia a imagem desbota e a gente guarda sem se incomodar

Um dia a gente põe um clipe na página do livro que não quer mostrar

Um dia a gente acredita e até vê graça em recomeçar

E um dia vira noite, que vira dia para esse dia enfim chegar.


domingo, 7 de março de 2010

Docinhos

O semáforo fechou, ela abriu o sorriso e foi até o carro da frente. Arrumadinha, a senhora. Casaco para o frio, tiara segurando os cabelos de algodão. Uma mão para trás, elegante, a outra segurando uma bandeja com docinhos.

Mas ela não vendia os docinhos como se vendesse qualquer coisa. Dava para ver o orgulho, o capricho, a receita que a mãe tinha ensinado há tantos anos. Não achei que a luz verde do semáforo mudaria tudo. O carinho, o cuidado, os babadinhos todos viraram olhos de desespero mirando a minha reação. Por favor, moça, espera só eu vender esse docinho. Não que ela tenha falado, mas não que precisasse. Foi só a curva da sobrancelha, o brilho a mais nos olhos, as mãos agora perdidas sem saber se acenavam para mim ou entregavam os docinhos para o motorista.

Quando as moedinhas foram para o bolso do casaco, ela se apressou em sorrir para mim. E eu sorri de volta, sem graça e com uma sensação esquisita. Queria que ela soubesse que não foi um sacrifício. Que eu nem pensei em buzinar. Que é preciso um mínimo de educação e gentileza. E que não me custava perder um segundo para que ela pudesse ganhar um real.

Passei pela senhora e vi no retrovisor o semáforo fechando de novo. Ela já estufava o peito, levantava a cabeça e vestia-se de dignidade mais uma vez. Torci para o moço do carro de trás também querer um docinho.